2009, o Ano em que fizemos Vapor

janeiro 2nd, 2010 Tagged , , , , , ,

Enquanto o vaporifico Romeu Martins olha para a frente, nosso observatório vira suas lentes para o que passou para recapitular como foi 2009, o Ano em que fizemos Vapor. Essa retrospectiva faz par com material que estou publicando no blog FC & Afins.

- O Conselho Steampunk finalmente despontou. Fundado em 2008, em 2009 a principal associação steamer brasileira tornou-se uma das partes mais ativas do fandom de FC/F nacionais. Além do excelente site e da presença em vários estados (como RJ, SP, MG, PR, RS, PB), o Conselho teve participação em eventos como a RPGCon, a Fantasticon, convenções de animes, além de ter aparecido na mídia impressa e virtual. E ainda por cima gerou repercussão internacional, com citações do próprio Bruce Sterling.

Porém, o grande destaque do Conselho em termos de interação. Além de ter criado o Steambook, a rede de relacionamentos em que este blog está inserido, o Conselho organizou a SteamCon, uma convenção virtual de steamers, foi força-motriz da Fantástica Jornada Noite Adentro Steampunk e ainda criou o aoLimiar, rede social para escritores e leitores de FC e Fantasia em geral.

- Literariamente, 2009 foi ano em que editoras, leitores e escritores começaram a prestar realmente atenção ao steampunk, já extremamente bem sucedido lá fora. Além das traduções de Airman e Anno Dracula, assistimos o fenômeno que foi a coletânea steampunk da Tarja Editorial, ‘Steampunk: Histórias de um passado extraordinário’. Mesmo não tendo em mãos os resultados comerciais do livro (mas se Richard/Gian quiserem colocar aqui, serão benvindos), a repercussão do livro chegou a atravessar fronteiras. O crítico norte-americano Larry Nolen – que é uma máquina de devorar livros – destacou-o como um dos melhores livros de 2009, tendo inclusive feito uma boa resenha do volume.

Além da antologia, outras histórias vem surgindo – principalmente usando a web para se divulgar. José Roberto Vieira, que recentemente assinou contrato com a editora Draco para a publicação de seu romance steampunk O Baronato de Shoah, colocou um ebook no ar com uma história passada no mesmo universo. Régis Rocha, antigo membro da SciPulp – de onde veio Alexandre Lancaster, responsável pelo projeto ‘Expresso!‘ – lançou o ebook Agente A5: Segredos e Justiça. Vários membros do Steambook estão usando seus blogs para divulgar obras ficcionais a vapor, como O Nocturlábio de Cândido Ruiz.

E muito mais está por vir. A coletânea luso-brasileira Vaporpunk, o já citado romance de José Roberto Vieira… No ano que passou, colocamos pressão na caldeira.  2010 será o ano em que o vapor decolará.

Pelo menos, esse é o desejo deste humilde observatório que deseja a todos os steamers um Glorioso Ano Novo!



The End

Ernst Amedée B. Mouchez, espião de Sua Majestade Imperial

novembro 17th, 2009 Tagged , , , ,

Um conto steampunk estrelando um famoso (no século XIX) astrônomo e hidrográfo francês, Ernst Mouchez. Vale a pena dar uma lida na história da vida dele.

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Amédée Mouchez

O escritório estava aquecido demais, o que não melhorava em nada o humor do homem alto, que cultivava um denso bigode. Estava acostumado ao mar, o cheiro de sal, o grito de gaivotas. Queria acabar logo com aquilo.

- Então, monsieur le ministre acha que a sede dessa misteriosa organização fica no Brasil?

O Ministro de Assuntos Secretos assentiu com a cabeça. Explicou os seus motivos. Lera todos os relatórios das missões de espionagem enviadas ao Brasil por si e por seus antecessores – disfarçadas como missões artísticas e científicas – concordavam nesse ponto. Roussin tinha sido o mais enfático de todos ao declarar que “em breve, essa cabala de meliantes irá dominar um dos maiores países do continente americano”. Roussin visitara o território brasileiro pela segunda vez justo na convulsão causada pela abdicação de D. Pedro I e tinha visto as movimentações políticas da regência.

Mouchéz ficou encarando o seu chefe. Apesar de oficialmente ser um Capitão-de-Fragata da Marinha francesa, seu trabalho era na verdade o de um espião a serviço do Segundo Império de Napoleão III. Tinha sido recrutado quatro anos antes, logo após o sobrinho de Napoleão ter se proclamado Imperador. Apesar de contrário a tirania, Amadée não podia negar a veia progressista do governante, um grande apoiador da ciência e da industrialização. E além do mais, era muito mais emocionante ser um espião do que um mero comandante de missões de hidrografia, medindo profundidades e mapeando costas.

- E isso é um perigo. Esses… republicanos falsos nada mais são que aristocratas inconformados com as mudanças que os tempos trouxeram. A república deles será é uma oliquarguia, excluindo ainda mais os desamparados. Algo que nos fará voltar ao mundo feudal, atrasado e despótico. Uma nova Idade das Trevas, é isso o que eles querem.

O Ministro, apesar de bem-intencionado, desconhecia as verdades de como era ser um dos “desamparados”. Mouchez, apesar de nunca ter sido um, convivia com os marinheiros e suas vidas sofridas. Naquelas camadas, fazia pouca diferença quem estava no comando. Porém, ficou calado. Não estava ali para discutir políticas ou o conceito de democracia. Nem mesmo apontar como a fala de seu superior era paradoxal. Ambos trabalhavam para um imperador, um sistema de governo pouco democrático – mesmo que tivesse sido eleito.

Então, ouviu atentamente.

- O crucial é cortar o mal pela raiz e impedir que esses ratos prosperem. Para isso, precisamos encontrar o lugar onde eles fazem suas reuniões. O relato de um dos auxiliares de Roussin, o tenente Gressier, foi bem enfático em apontar a cidade do Rio de Janeiro, onde está instalada a Corte Imperial. É o centro de poder do Brasil, uma cidade caótica e imensa.

- O que devo fazer?

- Encontrar os malditos Máscaras Brancas. Acabar com o refúgio deles e descobrir seus planos, as ligações com os conspiradores franceses e mexicanos. Temos que defender os ideais com que criamos a nossa pátria!

“Ou os tronos dos Bonaparte, o que me parece mais adequado nesta situação.” Mouchez conteve a sua ironia, sabendo que Jules Verne era muito novo e ainda deslumbrado pelo que via acontecer. O hidrógrafo-espião reconhecia as virtudes do seu superior, um homem inventivo e inteligente, mas não podia deixar de ver um pouco de ingenuidade na sua constante defesa do bonapartismo.

Preferiu ser pragmático.

- Bom, o que terei a minha disposição?

- A D’Entrecasteaux, uma fragata recém-desenhada. Aparentemente, um navio comum para cabotagem, porém tem várias adaptações e melhoramentos – o brilho nos olhos de Verne dizia que ele tinha sido o responsável por essas melhorias. – Entre outras pequenas coisas. Venha comigo!

Mouchez seguiu-o até um imenso armário de madeira maciça, cheio de trancas e cadeados. Parecia esconder um imenso tesouro, mas decepcionou-se ao ver que era apenas uma série de invenções amalucadas, provavelmente de lavra do ministro.

- Este – disse, tirando um imenso casaco. – é o sobretudo a vapor. Além de aquecer, tem um dispositivo onde se coloca um pouco de carvão. Ao acionar esse botão, perto do colarinho, o carvão começa a queimar e em minutos você será capaz de pular uma altura de quinze metros com o impulso do vapor, ou se já estiver no ar poderá controlar a queda e até mesmo subir alguns metros. É revestido por uma liga metálica flexível, tornando-se resistente a golpes de lâminas e a tiros…

O hidrógrafo segurou a vestimenta e quase desequilibrou-se.

- Mas isso deve pesar mais de 15 quilos!

O ministro mal o escutou.

- Sim, tem algumas desvantagens… Nada que atrapalhe o seu uso. O que mais tenho aqui? O óculos de visão noturna!

Jogou um intrigante artefato feito de vidros de várias cores no formato de um binóculo para ser prendido ao rosto. Dois fios de cobre saiam das laterais.

- Para funcionar, você precisa unir os dois fios assim… – demonstrou com cuidado. – e esfregar com um pedaço de lã. Isso irá ativar o material reativo que está entre as placas de vidros e você conseguirá ver fontes de calor à noite…

Mouchez resolveu não argumentar e apenas ouviu a ladainha incessante do ministro. No final da reunião, conseguiu sair levando apenas os dois primeiros artefatos, além de uma caixa quadrada que segundo Verne ‘tirava daguerreotipos instantâneos, que eu chamo de fotografias’. Aceitou, sabendo que no tipo de serviço em que estava, essas parafernálias pouco significavam perante a inteligência e a rapidez de raciocínio.

Chegou aos seus aposentos exausto. No dia seguinte partiria para Marselha, onde embarcaria na D’Entrecasteaux. O disfarce era o de uma missão hidrográfica, como tinha sido em três ocasiões anteriores. Mouchez desconfiava que os brasileiros sabiam da verdadeira natureza daquelas constantes visitas francesas ao seu litoral, mas que preferiam não arrumar problemas com os vizinhos. A primeira parada seria em Caiena, para se abastecerem e mandarem informes para Paris. Dali, seguiriam fazendo a cabotagem da costa brasileira, uma viagem de quase um ano inteiro – pelos cálculos de Mouchez, em seis meses chegariam na Corte, onde finalmente iria poder fazer sua investigação. Iria tentar demorar o menos possível, porém sua mente de cientista lamentava não poder fazer com cuidado e tempo sondagem batimétricas nos pontos perigosos da costa atlântica. Estava particularmente curioso pelos recifes chamados Abrolhos.

Divagava sobre os rumos da sua viagem quando ouviu baterem na sua porta. Ficou intrigado, pois era raro receber visitas. Para não correr riscos, pegou sua arma e deixou-a pronta.

Abriu a porta e ficou furioso com o que viu.

- Você? Seu cretino, eu pensei ter sido claro quando disse… – e avançou para cima do homem ruivo que estava parado na sua frente.

O visitante reagiu prontamente e em minutos Mouchez estava estatelado de costas no chão, uma mão do visitante tapando a sua boca, enquanto a outra empunhava a mesma arma que minutos antes ele preparou

- Desse jeito, você parte meu coração, Amedée. Eu pedi desculpas por ter sumido com o seu dinheiro, mas era um caso de vida ou morte. Agora, fique tranqüilo que vim a mando do Jules.

Mouchez já desconfiava disso. Assentiu com a cabeça e o ruivo soltou-o.

- Devo dizer, Richard, que eu esperava que estivesse na Inglaterra, cumprindo pena pelos seus crimes

- E eu estava – o irlandês pegou uma maçã do cesto que ocupava o centro da única mesa. – Mas a prisão fica monótona depois de dois anos, principalmente ao pensar que ainda faltavam 198 anos para cumprir a minha pena. Bom, vamos aos negócios.

No mesmo jeito despachado que Mouchez lembrava, Richard Davis sentou numa cadeira e colocou os dois pés em cima da mesa. Deu uma grande mordida na maçã.

- Está murcha, você precisa comprar frutas frescas… Bem, Jules disse que você vai precisar de alguns músculos na próxima missão, lá na América…

Mouchez olhou com nojo para as botinas sujas de lama em cima do seu móvel, mas preferiu não comentar nada. Ao invés disso, perguntou:

- E como você poderá me ajudar?

- Simples. Mudando seus planos de cabeça para baixo.

A cara de desentendido de Mouchez arrancou uma gargalhada de Davis.

- Oras, meu caro. Decididamente, você passou as últimas duas horas pensando em uma longa viagem de navio, estudando a fascinante composição do solo marinho… Quase um ano dentro do navio, números, cálculos, etc, etc… Não, nada disso. Temos que ser mais diretos. Os relatórios dos espiões indicam que o golpe pode acontecer em breve.

Irritado e sem muitas sutilezas, o hidrógrafo empurrou os pés do seu visitante.

- E como iremos chegar rápido ao Brasil?

- Voando… A fragata irá seguir o plano original, com um falso Mouchez. E nós, meu querido, vamos pelos céus no mais fabuloso engenho humano…

- Bateram demais em você na prisão, meu caro. Está começando a delirar, o que você disse não faz o menor sentido.

Sua única resposta foi o sorriso altamente malicioso do ruivo.

No dia seguinte, Mouchez ainda estava descrente das palavras de Davis. Tomou o seu desejum e arrumou-se da forma meticulosa que lhe era costumeira e preparou suas malas para a viagem que iria fazer. Olhou em dúvida para o sobretudo que Verne lhe dera, mas resolveu vesti-lo. Afinal, corria uma leve brisa mesmo. Ao descer, encontrou Davis encostado em uma carruagem sem cavalos. Mouchez ergueu as sobrancelhas. Já conhecia esse tipo de veículo apesar de saber o quão raros eram.

- Pronto para voar?

- Sim, quando esta geringonça explodir provavelmente iremos sair voando pelos ares…

Com um movimento cínico, imitando uma cortesia, Davis abriu a porta de ferro pintado. Ressabiado, o hidrógrafo entrou, enquanto o ruivo sentou-se no lugar do condutor. Partiram com um grande solavanco e um estrondo.

- Espero que saiba o que está fazendo…

- Claro que sei. Segure firme que a viagem será acidentada.

Foram sacolejando pelo calçamento de Paris. As pessoas na rua olhavam surpresas o veículo. Nas janelas, cidadãos assombrados apareciam para ver o que estava causando tanto barulho. Mas Mouchez mal percebeu essas reações, pois estava ocupado demais em tentar manter-se preso no banco enquanto Davis dirigia, cantando algo.

Para o bem do hidrógrafo, a viagem não demorou tanto. Depois de uma breve pausa para o almoço em um restaurante já fora do centro de Paris, prosseguiram no seu caminho. Tinham saído da cidade, seguindo na estrada de terra que levava a Chartres. Em um descampado sem ninguém próximo, Davis fez uma curva abrupta, fazendo o passageiro bater a cabeça na lateral do carro e começaram a andar fora da estrada, por uma trilha pouco usada e coberta de mato. O ruivo falou, gritando para ser ouvido por cima do barulho do motor.

- Estamos quase chegando. Garanto que você irá ficar surpreso com o que vai ver.

E Mouchez realmente ficou. Minutos depois desse aviso, o veículo começou a aproximar-se de uma imensa estrutura de pano e metal que brilhava ao sol.

- Pronto, eis nosso meio de transporte!

Para Mouchez era inconcebível que algo pudesse voar pela distância que separava a França do Brasil. Mas também nunca conseguira imaginar que existisse algo como o que estava vendo. Tinha a forma de um charuto, um pouco mais gordo talvez. Uma cabine sustentava um balão de pano que estava começando a ser inflado aos poucos com ar quente.

Davis parou na frente de uma cabana.

- Pronto. Aqui temos que deixar o carro, pois faíscas podem incendiar o balão e não queremos isso. Pronto, Amedée?

Ele não respondeu, admirado ainda com o que via. Um senhor de cabelos brancos sujos, vestido com uma espécie de jaleco completamente manchado de óleo, aproximou-se.

- Boa tarde. Os senhores são os nossos passageiros? Meu nome é Couttard e sou o responsável por essa operação.

- Prazer.

- Os preparativos estão sendo concluídos, em breve tudo estará pronto para a partida de vocês, de acordo com o papel timbrado que recebi. O piloto está esperando na cabine. Tem provisões suficientes para ida e volta.

O velho falava e indicava o caminho na direção da estrutura. Na verdade, fazia isso para Mouchez, pois Davis avançou por conta própria, muito interessado.

Ao aproximarem-se, foram saudados por uma inesperada voz feminina.

- Olá, passageiros!

Ela era loura, olhos azuis e um belo sorriso. Davis confidenciou a Mouchez entre dentes.

- Bonitinha, mas muito magra para mim…

O francês não respondeu, pois sua estupefação só aumentava. A moça era indiscutivelmente uma beldade e tinha traços semelhantes aos do velho engenheiro. Estava vestida com uma calça de sarja marrom e um colete de couro. Usava uma touca cobrindo as orelhas, deixando o cabelo sair por trás, e veio recebê-los com a mão estendida.

- Vejo que já conheceram meu avô. Eu sou a Geneviéve, mas podem me chamar de Gen.

- Eu sou o Davis e o meu colega de boca aberta é o Amedée…

O hidrógrafo conseguiu recobrar a sua presença de espírito a tempo de dar uma cotovelada em Davis.

- Senhora, desculpe os modos rudes de Davis, lamento muito por isso.

Apertou a mão delicada, surpreso com a força que ela tinha.

- Sem problemas, monsieur Mouchez. Estou acostumada a lidar com operários e mecânicos, não tenho tais susceptibilidades. Bom, vamos aproveitar que o dia está bom para partir logo. Assim, chegaremos na Guiana em três dias, quatro no máximo.

Enquanto caminhavam até o fabuloso engenho, Mouchez conversou com a jovem engenheira.

- Então, devo dizer que estou muito curioso para saber como funciona essa maravilha que a senhora criou…

- Realmente, monsieur, pode me chamar de Gen. O princípio do vôo é muito simples, tendo sido descoberto por um padre português há vários anos. Na época em que Portugal esteve sob o comando francês, o general Manet encontrou vários planos e projetos desse inventor e os enviou imediatamente para a França. Há equipes trabalhando nos esquemas do padre desde então. Meu avô foi um dos primeiros engenheiros a conseguir chegar a um protótipo que pudesse ser manobrado…

- Surpreendente. Mesmo com as mudanças de regime, o projeto não foi afetado?

- Não. Conseguimos nos manter em segredo por todos esses anos, trabalhando com um orçamento desviado de outras instâncias de governo… Afinal, todos os que sabiam são cientistas, leais ao nosso país e à ciência. Assim como o senhor, o que me deixa de consciência tranqüila em deixá-los ver nossa grande invenção.

Mouchez não tinha tanta certeza se poderiam confiar em Davis, mas se o ministro tinha designado o irlandês para a missão é por ter levado essas minúcias em consideração.

- O ministro Verne deve adorar esse projeto…

Gen arregalou os olhos azuis.

- Jules Verne? Mas ele não sabe o que estamos fazendo aqui, o Ministério de Assuntos Secretos não participa da nossa cooperativa.

- Então, como conseguimos a autorização para utilizar o seu veículo aéreo?

- Bom, recebemos um pedido do Ministério da Marinha para fazer uma viagem de reconhecimento de rotas de navegação e configurações astronômicas. Seu nome foi citado e como sabemos de seu trabalho científico, consideramos adequado o pedido. O senhor não é da Marinha?

- Sim, sou…

Nesse momento, Mouchez sentiu algo cutucar a sua nuca.

- Foi mal, Amedée meu velho. Porém, para variar você caiu como um pato em tudo o que eu disse. A beldade pode fazer o favor de seguir em frente, se não teremos miolos de hidrógrafo para o jantar.

Continuaram a caminhar carregando as malas de viagem. O dirigível ficando ainda mais gigantesco conforme se aproximavam, parecendo um edifício cheio de ar. As amarras o prendiam na terra enquanto o balão ficava cada vez mais estufado. Os três passaram em silêncio pelos operários que davam os toques finais.

- Agora, minha cara, não diga nada, pois se o fizer, além de matar meu amigo aqui irei furar essa bolha de ar.

- Por que você está fazendo isso, Davis? – Mouchez perguntou, indignado.

- Digamos que os espiões ingleses descobriram esse projeto e a justiça britânica considerou uma redução drástica da minha pena se conseguisse levar o protótipo e alguns planos até o outro lado da Mancha. Então, foi só fazer os meus contatos no Ministério levarem uns dossiês modificados para o bom, criativo e ingênuo Verne…

O ruivo sorria, satisfeito consigo mesmo. O hidrógrafo mal podia acreditar no que estava ouvindo.

- Não há cabala secreta ameaçando o trono imperial brasileiro? Mas o almirante Roussin…

- Era um dos homens menos imaginativos que eu já li, Mouchez. Ele só via o que estava claro, jamais perceberia uma ameaça misteriosa ou algo do tipo. Mas seu rigor científico fez com que Verne o admirasse, então…

A moça resolveu interferir na conversa.

- E o que você quer de nós?

- Pode ficar tranqüila, mocinha. Nada de mau irá acontecer a vocês… de muito mau, pelo menos. Depois que pousarmos na Inglaterra, você irá reproduzir os diagramas dessa coisa, elucidar uma ou outra dúvida e será liberada. Meu camarada aqui provavelmente vai responder a um interrogatório e passar um tempo descansando em alguma penitenciária britânica. Dizem que a da ilha de Mann é muito pacífica…

A raiva de Mouchez era tamanha que ele rangia os dentes. Sabia que estava numa situação difícil. Não tinha como avisar os operários sem colocar a todos em perigo. Conhecia Davis e sabia que o irlandês não iria parar até conseguir o que queria. O melhor a fazer era saírem dali para que os demais pudessem ficar a salvo. No ar, teria que arranjar uma forma de libertar a si e a Geneviéve.

Esperava que a moça compreendesse. Olhou-a e percebeu que ela também o observava. Deu um sorriso, buscando confortá-la e ela olhou na direção do avô, que conversava despreocupado com os operários. Mouchez sinalizou que tudo ficaria bem e só então ela sorriu de volta.

Davis percebeu a troca de informações entre os dois e apertou a arma com mais força na nuca de Mouchez.

- Sem gracinhas, Amedée. Você sabe bem com quem está lidando. Não estou para brincadeiras hoje.

O hidrógrafo não respondeu e prosseguiu. Olhou disfarçadamente para os lados, tentando analisar a situação. O balão estava praticamente cheio, as cordas que seguravam a frágil estrutura, retesadas. A partida era iminente e os operários começavam a fazer as checagens finais, soldando pequenos pedaços aqui e ali, ajustando um ou outro parafuso. Mouchez podia ouvir o metal estalando e se acomodando. Esperava sinceramente que aquela geringonça voasse, embora não tivesse pensado no que iria fazer quando estivessem lá em cima.

A escada de metal que ficava dependurada da cabine do balão-dirigível rangeu quando subiram. Uma brisa suave começava a soprar com um toque de gelo. Era o vento leste, um bom prenúncio se os planos anteriores fossem ser realmente cumpridos. Na atual situação, Mouchez não sabia o que esperar.

A cabine era relativamente espaçosa, dividida em quatro ambientes. No bico da aeronave, ficava um timão parecido com o de um navio ligado a uma série de polias e roldanas que conduziam a nave. No lado oposto, duas portas fechadas davam para o que Geneviéve descreveu como aposentos privativos. No meio, uma sala de convívio e refeitório. Os três acomodaram-se perto da murada, vendo a movimentação final para a partida.

- Pronta, Gen, my dear. Estamos todos a bordo, pelo que vejo. Pode dar ao seu tio a ordem de partida.

A moça hesitou em cumprir a ordem, fazendo com que o ruivo engatilhasse a arma e aumentasse a pressão na nuca do espião-hidrográfo.

- Vou dar uma chance a você porque não nos conhecemos – prosseguiu pausadamente, acentuando as palavras. – Mas não estou blefando e não irei hesitar um instante sequer em estourar o crânio de nosso amigo em comum.

Os lábios da engenheira tremeram, mas ela não disse mais nada. Respirou fundo e parecia pronta a chamar o avô quando Davis a interrompeu.

- Sorry por interrompê-la, mas você poderia pedir ao seu avô para trazer seus planos e esquemas? Sabe, a papelada que ajudou a construir essa traquitana toda…

- Se eu pedir isso, meu avô irá estranhar… Poderá levantar suspeitas.

- Bom, a não ser que o velho seja muito rápido de raciocínio, provavelmente já estaremos voando quando ele perceber que há algo de errado. Não acho provável. Dê uma boa desculpa, mas ande logo. Estou cansado da França – e indicou Mouchez com a cabeça, dando a entender que descontaria seu tédio nele.

Geneviéve entendeu o recado e foi até a janela da cabine.

- Avô, o senhor pode trazer a caixa com os desenhos e esquemas do Josephine? Se houver algum problema, eles poderão ser úteis.

Para a tremenda decepção dos dois reféns, o velho senhor Couttard sequer atentou a estranheza do pedido. Simplesmente foi na direção da cabana e trouxe o que a neta pediu. Geneviéve olhou para Mouchez e disse, com amargura.

- Meu avô é muito solícito.

Davis se meteu.

- Adorei o velho, dear. Agora, vamos.

Ela deu as ordens e as cordas foram soltas. O veículo deu um solavanco e começou a subir bruscamente, dando trancos.

Génevieve teve que falar alto para ser ouvida.

- Tenho que calibrar o vapor… Se não, continuaremos a subir sem controle e as caldeiras poderão explodir!

Davis simplesmente acenou com a cabeça, ocupado que estava em se segurar com uma mão e apontar a arma para Mouchez com a outra. A moça afastou-se até a cabine de comando e puxou uma alavanca. O veículo balançou, desequilibrando os seus ocupantes. O espião francês viu no momento de distração do seu captor a sua grande chance de escapar.

Mas a única chance de sobreviver dependia do engenho inventivo do seu ministro. E esse costumava falhar por vezes. Bom, ele iria morrer de qualquer maneira ao chegar na Inglaterra então pouco tinha a perder.

Com um safanão, libertou-se e no mesmo movimento, para não deixar Davis pensar, atirou-se pela murada. Ouviu o grito angustiado de Geneviéve e as imprecações de Davis, abafados pelo zumbido do vento em seus ouvidos.

“Meu caro Verne, vamos ver se você é mesmo tão genial.”

O peso do casaco de metal o puxava para baixo mais rápido do que esperava. Teria poucos segundos para agir. Conseguiu posicionar-se abaixo do dirigível, ergueu a cabeça e acionou o dispositivo inventado pelo ministro.

O impulso quase fez com que ele batesse na parte inferior do casco do dirigível. Consegui se desviar no último momento e segurou na lateral, bem a tempo de acabar o pequeno estoque de carvão do dispositivo criado por Verne. Para livrar-se do peso extra, jogou o casaco, que caiu rapidamente.

De onde estava, pode ver Davis ameaçando Geneviéve. Decidiu não fazer nada e esperar uma oportunidade. Pelo que pode ver, o sistema de iluminação, a gás, era concentrado em cima da cabine de comando. Quando a noite chegasse, seria mais fácil se movimentar pelo dirigível sem ser visto pelo inglês.

Felizmente, tinha os óculos para enxergar na ausência de luz.

Infelizmente, não sabia quando tempo sua viagem iria demorar e se a noite ainda estariam sobre solo francês ou no meio da Mancha.

Mas tinha que arriscar. Ajeitou-se como pode no canto mais afastado do comando e preparou-se para a longa espera. Pela posição do sol teriam no mínimo mais três horas de luz natural.

Ainda estavam sobrevoando a França quando chegou o anoitecer, mas algo no ar dizia para Mouchez que em breve estariam sobre o mar. O tempo seria mais escasso do que pensava. Olhou na direção do leme e viu Geneviéve ainda sob a mira da arma de Davis. O irlandês parecia exausto, no entanto, o que era uma grande vantagem para Mouchez. Tinha que desarmá-lo rápido, sem dar chances para reação.

Esperava dar tanta sorte com o óculo como dera com o casaco projetado por Verne. A noite caia rápido e a luz ficava cada vez mais escassa. A iluminação no veículo era concentrada em cima da cabine de comando. Se a criação de Verne funcionasse, ele conseguiria reaver o controle da aeronave rapidamente.

Era noite de lua nova e a escuridão era quase total. Geneviéve estava na direção enquanto Davis continuava a empurrar a arma em sua direção. Não podia esperar mais para atacar.

Fez o que seu chefe havia dito, esfregando as pontas do fio de cobre em um pedaço de lã. O cheiro era um pouco estranho, mas se acostumou logo. Ficou maravilhado ao ver como estava funcionando bem. Não podia ver claramente, porém via em tons de verde, amarelo e vermelho. Dava para distinguir os vultos dos dois claramente, mesmo na luz fraca.

Respirou fundo e foi em frente. Aproximou-se em silêncio, pois Davis era um agente treinado e poderia percebê-lo no escuro. Ouviu os dois discutindo.

- Estou dizendo que não vou conseguir continuar. Estou com sono, cansada, quero ir ao toalete…

- Já falei que na Inglaterra você vai dormir na sala de banhos. Agora, cala a boca ou vai voar que nem o seu amiguinho.

Nesse momento, Mouchez pisou em um pedaço mal-colocado do piso, que rangeu baixinho.

- O que foi isso?

- Talvez tenha sido o vento forçando uma das amarras. É melhor eu ir ver o que aconteceu.

- Nada disso, querida. Você vai ficar aqui mesmo. Sei lá que truques você carrega na manga.

Mouchez lamentava não ter ficado com o casaco, para se proteger de possíveis disparos. Porém, contava com o pouco de bom-senso de Davis. Ele não iria arriscar um tiro que poderia matá-los a todos.

Em um único movimento ligeiro, aproximou-se dos dois. Puxou Geneviéve na sua direção e colocou-se entre ela e Davis. O irlandês percebeu a movimentação.

- Quem está aí? Geneviéve?

Mouchez não hesitou e deu um soco no estômago do seu antigo parceiro de viagem. Precisava tirar a arma dele o mais rápido possível, antes que conseguisse reagir. Só que Davis não conseguira sua fama de bom lutador a toa. Assim que ele percebeu de onde vinham os golpes, virou-se na direção de Mouchez, que estava visível na iluminação fraca da cabine.

- Você não tinha morrido, desgraçado?

Tentou bater com a coronha de sua pistola no braço de Mouchez, mas este conseguiu jogar o corpo para o lado e se desviar.

- É que sou um anjo e voltei voando.

Chutou o peito de Davis que agüentou o tranco e segurou o seu pé. Mouchez se desequilibrou e o seu oponente aproveitou-se disso para derrubá-lo no chão.

- Anjo, é? Dessa vez, vou fazer com que você caia direto no inferno.

Davis estava mirando no peito de Mouchez, mas antes que pudesse atirar, o francês rolou de lado. Levantou-se o mais rápido que pode, enquanto o outro refazia a sua mira.

- Trate de ficar morto dessa vez, francês fedorento.

Mouchez saltou para a frente bem no momento em que Davis atirava. Conseguiu bater no braço dele e desviar o tiro ao derrubar a arma. O resultado foi desastroso. Geneviéve deu um grito estridente ao ouvir o barulho da bala arrebentando o tecido e o ar começando a escapar.

- Não! O tiro furou o balão.

O espião francês desviou a sua atenção por um instante. Davis aproveitou esse momento para derrubá-lo. Os óculos quebraram com o impacto do rosto no chão da cabine e Mouchez sentiu um corte na bochecha direita. “Pelo menos, não foi no olho.”

- Vocês querem parar com isso, nós vamos cair!

Geneviéve aproximou-se da direção, passando pelos dois. Davis buscava recuperar a arma enquanto Mouchez se levantava. A aeronave começava começava a perder altura rapidamente.

Mouchez tinha se erguido e Davis desistiu de procurar o seu revólver. Os dois voltaram a se engalfinhar, desferindo socos enquanto tentavam não se desequilibrar no dirigível que dava solavancos bruscos enquanto caia.

Chegou um momento em que Mouchez se viu encurralado entre Davis e a murada que cercava a cabine. Estava de frente para seu inimigo e segurava-se na murada com as mãos. Não tinha outra saída e o irlandês estava enfurecido.

- Eu sinceramente espero que doa bastante cair dessa altura, Mouchez – ele arremeteu na direção do francês na mesma hora em que Geneviéve fez a aeronave dar uma guinada para a esquerda.

O resultado foi previsível. Com isso, Davis se desequilibrou, dando a chance para que Mouchez tentasse imobilizá-lo. Porém, ele não aceitou isso quieto e se debateu.

- Fique quieto, Davis, você vai acabar caindo.

O irlandês mordeu o braço de Mouchez que deu um berro e o soltou. Sem conseguir se equilibrar, Davis acabou caindo pela murada. Não deu tempo para reagir. Mouchez e Geneviéve assistiram incrédulos.

- Droga, não devia acabar assim.

- Mouchez, nós temos outros problemas…

Mal ela terminou de falar isso, a aeronave deu outra balançada, começando a cair ainda mais rápido. O balão acima de suas cabeças estava cada vez mais vazio.

- Você tem como consertar isso?

Ela sacudiu a cabeça.

- Sem condições. Se algo tivesse sido feito logo após o tiro, ainda teríamos alguma chance de consertar. Agora, eu tenho que nos colocar em terra da melhor forma possível – disse isso agarrada no leme. – Tente ver se encontra um lugar onde possamos descer.

A noite escura não estava ajudando nada e Mouchez demorou a encontrar um lugar.

- Ali, a oeste. Tem um pequeno bosque e depois uma clareira.

- Certo, vamos ver o que eu consigo fazer.

Foram minutos angustiantes, a nave descendo cada vez mais rápido e a moça tentando controlá-la.

- Geneviéve, estamos baixo demais e as árvores estão se aproximando.

- Então não vai ter jeito. Segure-se.

Mouchez não sabia contar o que aconteceu exatamente. Assim que Geneviéve mandou segurar-se, ele fechou os olhos. Conseguiu sentir os solavancos e o barulho da madeira da cabine arrastando na cabine, o cheiro de galhos e folhas partidas, o impacto quando alcançaram o chão.

Depois, mais nada.

Acordou com Geneviéve segurando a sua cabeça. Ela segurava um lampião e parecia preocupada.

- Monsieur Mouchez? O senhor está bem?

Ele tentou sacudir a cabeça, mas a dor fez com que pensasse melhor e respondesse falando.

- Sinto muita dor, porém não creio que haja algo quebrado. Onde estamos?

- Nos arredores de uma aldeia costeira. Os aldeões viram a aeronave cair e vieram nos ajudar. Por muito pouco não caímos no canal da Mancha.

- Temos que avisar Verne e seu avô.

Ela sorriu.

- Já fiz isso. Avisei o magistrado e mandei um mensageiro para lá. A resposta deve chegar em dois dias.

Ele olhou ao seu redor para os destroços da primeira aeronave dirigível a singrar os céus.

- É uma pena tudo o que aconteceu… – de repente, ele teve um péssimo pressentimento. – E Davis? Os projetos?

O belo rosto de Geneviéve fechou em uma expressão preocupada.

- Fizemos uma busca preliminar. Nem sinal do corpo dele. O magistrado ficou de avisar as vilas dos arredores sobre ele. Também não encontramos os planos que estavam com ele…

O coração de Mouchez ficou apertado no peito. Davis era conhecido por ter enganado a morte diversas vezes. Não ficaria surpreso se em breve tivessem notícias de uma esquadra aérea britânica.

Ouviram os aldeões se aproximando em uma charrete.

- Vieram nos buscar. Pronto para ir?

- Sim – ele não parecia nada animado e ela o ajudou a se levantar. – Mas antes… Nossa bagagem se salvou?

- Não vi nada faltando, por que?

Mouchez conseguiu sorrir, apesar de toda a dor que sentia;

- Quero levar ao ministro Verne uma imagem do que aconteceu aqui hoje. E como os dois outros inventos dele funcionaram, esse deve funcionar também. Vamos tirar uma fotografia.

- Mas… ele não sabe do nosso projeto.

O hidrógrafo olhou na direção do mar.

- Se meus temores se confirmarem, não irá demorar muito para o seu projeto deixar de ser um segredo…


The End

Novidades no mundo SteamLiterário

novembro 16th, 2009 Tagged , , , , , , , , , ,

Bom, fiquei quase uma semana fora do ar só acessando emails e dando uma rápida olhada no mundo virtual. Estive em Ouro Preto, participando de um simpósio internacional sobre Cartografia e aproveitei para matar a saudade de uma das cidades com o clima mais steam no Brasil. Afinal, lá, já perto do final do Império, foi fundada a Escola de Minas de Ouro Preto, uma tentativa de produzir conhecimento científico no nosso país.

Enfim, depois eu desenvolvo isso melhor.

Vamos às novidades:

- Enquanto minha resenha de Steampunk – Histórias de um passado extraordinário não vem, Bruno Schlater fez a sua.

- O artista Rod Reis chamou o pessoal do podcast Papo na Estante (que tem, além de yours truly, Ana Carolina Silveira, Eric Novello e Thiago Cabelo) para falar do movimento a vapor. Eu, particularmente, devo dizer que adorei o resultado e que o Rod Reis foi um excelente anfitrião! Confiram aqui.

- O querido vaporzeiro Romeu Martins publicou a sua resenha de Aviador no blog Cidade Phantástica. A resenha, como é costume do jornalista, está excelente, pegando alguns pontos que eu deixei de lado e adicionando novas informações.

- O incansável Romeu entrevistou o igualmente incansável Bruno Accioly, o homem que idealizou um mundo a vapor brasileiro lá no Overmundo.

- Essa movimentação tem motivo e forte. Está chegando a IIIa Fantástica Jornada Noite a Dentro e o tema vai ser… steampunk, lógico! Você confere a programação aqui. Aliás, o organizador, o mais incansável ainda Silvio Alexandre, repostou a nossa nota sobre Anno Dracula no site Universo Fantástico, adicionando um aviso: o lançamento desse romance tão aguardado será lá, na Biblioteca Viriato Correa.

Tomando a liberdade para fazer um péssimo trocadilho, o steampunk no Brasil está a todo vapor!


The End

Airman – Eoin Colfer

novembro 8th, 2009 Tagged , , , , , , ,

Na leva de lançamentos interessantes desse segundo semestre, a Record, com o seu selo para adolescentes (ou Jovens Adultos) surpreendeu trazendo Airman de Eoin (pronuncia-se como Owen) Colfer, o homem por trás da série ‘Artemis Fowl’. Com o título de Aviador - uma tradução bem razoável – o livro já está nas prateleiras virtuais de todo o país.

Eu comprei o livro em inglês no ano passado após recomendação de Alexandre Lancaster. Não saiu caro, foi cerca de R$ 45,00 a edição em hardcover e valeu muito a pena.

Como eu acho um grande erro resenhar uma edição que você não ainda não tem em mãos (apesar de pessoas ditas profissionais na crítica literária terem esse péssimo costume), vou aqui registrar minhas impressões sobre a edição que eu comprei, a 1a edição britânica – a americana saiu pouco depois. Portanto, infelizmente, não poderei comentar sobre a tradução e a adequação da edição brasileira.

Airman Mas a capa é igual -  e muito mais bonita do que a do paperback, na minha humilde e leiga opinião. Pelo menos, eu gostei muito.

Bom, Airman pertence a uma longa tradição de histórias que infelizmente tem perdido força nos últimos anos. Histórias como Os três mosqueteiros ou os filmes de Errol Flynn. Porque, acima de tudo, do steampunk e do especulativo, Airman é um livro – e dos bons – de capa-e-espada, ou como os anglofonos chamam, swashbuckling.

O jovem Connor Broekhart mostrou que o homem nasceu para voar. Ele mesmo veio ao mundo em um balão e enquanto crescia foi se apaixonando pelos céus, pelas nuvens… e pela jovem princesa do reino das Saltee Islands, Isabella.

A vida é boa no próspero reino, localizado perto da costa da Irlanda. Aliás, o lugar é a sintese da utopia vitoriana que tanto aparece na literatura steampunk: os nobres o são de nascimento e espírito, o rei é bondoso, o povo é ordeiro e feliz, o cientista maluco de plantão é respeitado e o vilão da história… bem, ele se chama Bonvillain.

E ele logo coloca as garras de fora, incriminando nosso protagonista em uma complicada trama política e o aprisionando em Little Saltee, uma prisão de onde ninguém consegue escapar.

A partir daí, para saber da trama e como Connor vai sair dessa encrenca, recomendo a leitura. Sim, enfatizo esse ‘recomendo‘, por vários motivos.

Antes de mais nada, é sempre um prazer ler algo destinado a um público jovem que não o trata como idiota. O ‘tatibitatismo’ de alguns autores brasileiros fazem com que muita gente grande torça o nariz para a nossa literatura infanto-juvenil. Não os culpo, até o meu filho de sete anos tem pouca paciência para isso.

Mas Eoin Colfer – e boa parte da literatura de young adults que me tem caido nas mãos – respeita seus jovens leitores, inclusive na linguagem. Claro, não dá para esperar numa literatura para jovens os mesmos contorcionismos estilistico-descritivos que fazem Perdido Street Station do China Mieville uma tortura para seu inglês-de-seis-meses-de-cursinho. Porém, Colfer não poupa na descrição da cela de seu protagonista ou nos dias em que ele passou ali.

Aliás, é nesse pedaço do livro que ficou clara, para mim, a grande referência da obra, que chega quase a ser uma homenagem. Airman, a sua maneira, é uma releitura-citação-homenagem a um dos grandes clássicos da literatura mundial, O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, pére. Não só o tema da vingança dá o mote da ação do protagonista, como há vários elementos reforçando a sensação, como a prisão, mortes que não são verdadeiras, uma identidade falsa… Registro que isso não é um ponto negativo. Muito pelo contrário. Refrescar temas clássicos da literatura e homenagear livros como esse, que formam o verdadeiro cânone literário mundial, só pode ser bom.

A história é bem amarrada, evitando o efeito arrastado que tenho sentido várias vezes ao ler. Os fatos vão se encadeando no tempo certo e você realmente fica torcendo pelo ‘Batman do século XIX‘. Os personagens são carismáticos na medida certa – mesmo o caricato vilão está no clima do livro.

Tudo o que um bom livro de capa-e-espada tem que ter, está ali. Duelos, ação, fugas, explosões… e um pouco de romance. Tem tudo o que você espera de um livro steampunk também, com invenções antes do tempo, vapor movimentando a economia e o mundo. E claro, um pouco de romance.

O grande ‘porém’ do livro – em minha opinião – é ser um livro essencialmente para garotos. Apesar das personagens femininas estarem bem construídas e serem relevantes para a história, pouco aparecem. O livro trata, por trás do tema da vingança e de como conseguir colocar um homem no céu no século XIX, do processo de transformação de um menino em um homem e por isso pode, por vezer, apelar menos para um público feminino.

Nada que desmereça o todo. Leitura super-recomendada e já estou encomendando o meu para que Miguel, o rapaz de sete anos aqui de casa, possa desfrutar dessa aventura.

Links

Site oficial do autor

Resenha no Guardian

Página da Galera Record


The End

Anno Dracula – lançamento steampunk da Ed. Aleph

novembro 7th, 2009 Tagged , , , , ,

Anno DraculaFinalmente o mercado editorial brasileiro está apostando no steampunk. Depois de Aviador - resenha amanhã neste espaço – e da coletânea nacional da Tarja – que terá um preparo especial neste espaço – é divulgado o lançamento de Anno Dracula, pela editora Aleph.

Embora alguns não o considerem estritamente steampunk , mas como um gaslight romance com toques steam, é uma leitura obrigatória para quem gosta da estética ou da ambientação vitoriana.

O ponto de partida é simples, uma mudança na história contada por Bram Stoker: e se Dracula tivesse conseguido alcançar seu objetivo e dominar a Inglaterra? A partir daí, com o vampirão casado com a Rainha Vitória, os vampiros saem de seus esconderijos para interagir com a sociedade humana. Além de Dracula, vários outros personagens ficcionais aparecem, fazendo do livro um jogo de referências.

O livro é o primeiro de uma série (nem toda ela steam), sendo seguido por Bloody Red Baron e Dracula Cha Cha Cha, além de histórias curtas ambientadas no mesmo universo.

O grande ponto de Newman é o brincar com outras ficções, trazendo personagens de livros, filmes, HQs, seriados para as suas histórias. No site oficial do autor, você encontra o link para ‘Anno Dracula: the background’, onde o autor fala sobre esse universo, trazendo as referências e o processo de criação do mesmo. (E cheio de spoilers sobre o livro, por isso não coloco o link aqui)

O livro já está em pré-venda na Saraiva.

O site oficial do autor tem várias informações sobre as obras.


The End

Ficção a todo o Vapor!

novembro 4th, 2009

Mesdames et messieurs, benvindos ao Observatório a (do) Vapor, um espaço para discutir e apresentar um subgênero da literatura especulativa que vem gerando um grande burburinho no nosso fandom.

Aqui teremos resenhas, artigos, comentários, notícias e até mesmo exemplos da literatura a vapor.

Para começar os trabalhos, aí vai uma versão levemente alterada do meu ensaio ‘Ficção a Vapor‘, publicado em 16/07/2009 no blog ‘Ficção Científica e Afins’:

***

Peço uns minutinhos de vossa atenção para explicar o novo hype da Ficção Especulativa brasileira. Se você estava se esforçando para ser o novo China Mieville, dançou. Joga fora o conto. Ser weird é coisa do passado. A onda agora é… ser um steamer.

Steampunk é um estilo dentro da Ficção Especulativa em que se reproduz uma Era Vitoriana ucrônica, com avanços tecnológicos baseados no vapor. Vejam bem: a ênfase não é exatamente no Vapor – ou um conto sobre a minha chaleira seria steampunk – mas principalmente no ambiente que envolvia a Londres da segunda metade do século XIX.

Agora, qual o interesse em reviver essa época da história britânica?(Sim, bonitinho, Era Vitoriana strictu sensu foi só nos domínios ingleses…) Afinal, por maior que seja a variedade de cenários em que o steampunk se desenvolva, a sua base fundadora é esta, inegavelmente – até porque lá foi o berço da Revolução Industrial, o grande momento da tecnologia a vapor.



A Era Vitoriana compreendeu os anos do longo reinado da rainha Vitória, que governou o Reino Unido entre 1837 e 1901. Até hoje, desperta saudades nos britânicos por ter sido um período de prosperidade – para uma camada populacional bem definida, uma classe média urbana e mercantil que ascendia socialmente – e de grande pujança para o Império Britânico, sobre o qual o Sol nunca se punha. (Ok, a frase original é sobre o Império Espanhol do século XVI, mas está valendo aqui também).

Literariamente, tínhamos dos cínicos cronistas do mundo enfumaçado como Charles Dickens aos românticos crônicos como Tennyson. De um lado, a dura vida cotidiana de órfãos, do outro, a Idade Média adoçada, fundada por Walter Scott, uma época fundadora onde teria nascido o sentimento da nação no meio de justas, torneios e belas donzelas amorosas. E claro, a literatura aventurosa, como a de Robert Louis Stevenson, de piratas e tesouros, ou de H. R. Haggard e Rudyard Kipling, em que as estranhas terras dos domínios britânicos serviam de palco para a aventura de um grande herói.

Charles Dickens


Porque essa foi também a época das grandes explorações geográficas e dos aventureiros. A Oceania, a África, a Ásia e a América – abaixo do Rio Grande, pelo menos – eram os quintais dos corajosos britânicos, impelidos pelo ímpeto da necessidade de se conhecer o Mundo como um Todo, eliminando as incomodas ‘terras incognitas‘ que ainda apareciam nos mapas. A Sociedade Real de Geografia divulgava alvoroçada os descobrimentos e as novidades em seus boletins, ricamente ilustrados com gravuras de lugares exóticos e mapas o mais precisos que fosse possível. Florestas eram desbravadas, nascentes foram encontradas, tribos foram pacificadas (algumas nem tanto). Souvenirs eram trazidos: cocares, flechas, potes, pigmeus e cabeças tatuadas de maoris.

(Sério. Até uns anos atrás, o Museu da Quinta da Boa Vista tinha duas em exibição. Não estavam mais expostas na última vez que eu fui lá, mas fuçando na internet descobri que o governo da Nova Zelândia vem pedindo desde 2003 aos museus do mundo o repatriamento dessas lembranças macabras. Alguns atenderam, a França não quis abrir precedentes e a cabeça da foto estava em exibição na Bélgica em 2008)

A ciência floresceu. Charles Darwin escrevia sobre bicos de passarinhos ‘galapaguenses’. Faraday quebrava a cabeça tentando entender o magnetismo. E um tal de Charles Babbage começou a pensar em como seria uma máquina que pensasse.

Obviamente, nem tudo eram flores. Havia miséria – a emigração massiva de irlandeses para os Estados Unidos começou por essa época, guerras e conflitos armados grassavam nos domínios. Londres era uma cidade suja e perigosa. Afinal, Jack The Ripper é tão fruto dessa época quando o Dr. Livingstone.

Ok, Ana, valeu pela aula gratuita, mas… e daí?

Vocês prestaram atenção ao que eu disse lá em cima? Steampunk NÃO é sobre vapor. Assim como o cyberpunk não é sobre tecnologia. Ambos são sobre a atitude de uma época. A parte do ‘punk’ é o que importa aqui.

O século XIX é uma época vista com nostalgia, a quintessência do que a classe média urbana quer dizer quando fala em ‘bons velhos tempos’. Tem fascinado as gerações posteriores que escrevem e sonham com uma época em que um homem – ou uma mulher – valia pelo que realmente era e que valores eram respeitados. Aquela falsa sensação de ‘tudo era perfeito’ que o tempo consegue deixar no senso comum. Logo, o século XX é repleto de referências ao XIX – e muitas já com o toque da tecnologia a vapor que iria caracterizar o steampunk.

O cyberpunk é de certa forma o pai do steam, pelo menos no nome.

Este último, apesar de ter surgido esporadicamente desde a década de 1960, com algumas obras marcantes na década de 1980 (como Os portais de Anubis de Tim Powers), só se consolidou como gênero na obra de Bruce Sterling e William Gibson, The Difference Engine, de 1990. O termo apareceu anteriormente numa carta assinada por K.W. Jeter no prozine Locus em 1987, antecedendo em 3 anos o livro dos dois. O romancista referia-se a um trabalho de sua autoria, de 1979, só que o termo pegou. Porém, até os dois mais famosos pais do cyberpunk adotarem o gênero, o rótulo era usado de forma mais depreciativa. O termo vai aparecer em um título em 1995, com a Steampunk Trilogy de Paul Di Filipo.

A partir daí, o gênero se mostrou ser um campo para escritores inventivos poderem criar máquinas fantásticas e recriar o espírito vitoriano, aventuresco e cortês. Mesmo em obras com tons mais sombrios, os brios cavalheirescos surgem como uma luz na escuridão. O escopo geográfico ampliou-se, passou-se da Inglaterra e seus domínios para o resto desse mundo… e dos outros. Sim, ‘mundos’ a vapor foram concebidos e povoados, sempre mantendo um pezinho na sala de baile da Rainha Vitória.

Mas você provavelmente só ouviu falar de steampunk por culpa de um inglês barbudo que adora reclamar das adaptações de suas obras. Foi com a série A Liga dos Cavalheiros Extraordinários que o steampunk começou a chamar mais atenção. Ele e suas variações, como o dieselpunk de Captain Sky and the World of Tomorrow. O Vapor invadiu diversas vertentes. Desde o RPG Castelo Falkenstein (um favorito da casa) até o anime Steamboy.

E a gente com isso?

A gente realmente tinha pouco a ver com isso. Poucas obras do gênero foram traduzidas no Brasil. Esse ano, foi lançada a versão brasileira de Airman de Eoin Colfer, que saiu aqui como Aviador pela Galera Record (esperem para breve a versão cinematográfica) mas além disso, acho que só se você considerar o livro do Powers como steampunk. Talvez parte da trilogia de Phillip Pullmann. Nos quadrinhos, tivemos a Liga de Alan Moore. No RPG, Castelo Falkenstein. Nos cinemas, a coisa foi melhor: os blockbusters chegaram todos aqui – até mesmo As loucas aventuras de James West, infelizmente.

Agora, é de se admirar que um país que nos deu o Barão de Mauá, Augusto Zaluar, D. Pedro II, Santos Dummont… ainda não tenha produzido uma quantidade significativa de obras a vapor interessantes. Poxa, nosso imperador provavelmente foi o governante mais steampunk de sua época. Seu interesse por gadgets, ciências e novidades era/é notório.

Até esse ano, aconteceram algumas tateadas. Gerson Lodi-Ribeiro, Carlos Orsi Martinho e Octavio Aragão tangenciaram o gênero – os dois primeiros em contos, o último em seu romance, A mão que cria. Sendo um esforço criativo dentro da Ficção Alternativa, ao extrapolar as invenções dentro da obra de Júlio Verne, o autor criou um universo tecnologicamente avançado para o século XIX, em que não faltam criaturas estranhas, maquinas fantásticas e vapor, muito vapor.

Mas talvez a primeira obra consciente e declaradamente steampunk do Brasil sejam os quadrinhos de Expresso! de Alexandre Lancaster. Inspirada pelas edisonades e pela literatura pulp, a história do jovem cientista Adriano Montserrat se encaixa dentro do que os anglofonos chamam de Young Adults literature, ou seja literatura para jovens adultos – bem no clima do livro de Colfer citado acima. O piloto da série foi publicado em um projeto online de curta duração (e que você pode conferir parcialmente aqui), mas a saga continua, já que novas HQ’s estão previstas e um conto sobre o protagonista entrou na primeira coletânea nacional do gênero.


Com o burburinho em torno do steampunk aumentando, a Tarja Editorial convocou alguns autores – uns experientes, outros novatos – para escrever histórias no mundo do vapor.O lançamento do livro Steampunk – Histórias de um passado extraordinário foi em julho de 2009. Oportunamente irei fazer uma boa resenha da obra, mas adianto que no seu mix de histórias há vários estilo de steampunk e uma forte presença do Brasil enquanto cenário. Meu único porém é a presença de um conto pouco – ou nada – steampunk.

Mais iniciativas vem aparecendo aos poucos, como a futura coletânea capitaneada por Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva, com autores brasileiros e portugueses. Escritores vem desenvolvendo romances a vapor, como é o caso de José Roberto Vieira e seu Baronato de Shoah (o prelúdio está disponível aqui) e de Pablo Frazão e seu Mensagens na Garrafa.

Agora, é esperar para ver se continuamos na onda do vapor – ou se escolheremos um novo hype literário.

Links

Steampunk na Wikipedia

Obras steampunk

Coletânea steampunk brasileira

Expresso!

Baronato de Shoah

Mensagens na Garrafa

Cidade Phantástica


The End