Ernst Amedée B. Mouchez, espião de Sua Majestade Imperial
Um conto steampunk estrelando um famoso (no século XIX) astrônomo e hidrográfo francês, Ernst Mouchez. Vale a pena dar uma lida na história da vida dele.
+++

O escritório estava aquecido demais, o que não melhorava em nada o humor do homem alto, que cultivava um denso bigode. Estava acostumado ao mar, o cheiro de sal, o grito de gaivotas. Queria acabar logo com aquilo.
- Então, monsieur le ministre acha que a sede dessa misteriosa organização fica no Brasil?
O Ministro de Assuntos Secretos assentiu com a cabeça. Explicou os seus motivos. Lera todos os relatórios das missões de espionagem enviadas ao Brasil por si e por seus antecessores – disfarçadas como missões artísticas e científicas – concordavam nesse ponto. Roussin tinha sido o mais enfático de todos ao declarar que “em breve, essa cabala de meliantes irá dominar um dos maiores países do continente americano”. Roussin visitara o território brasileiro pela segunda vez justo na convulsão causada pela abdicação de D. Pedro I e tinha visto as movimentações políticas da regência.
Mouchéz ficou encarando o seu chefe. Apesar de oficialmente ser um Capitão-de-Fragata da Marinha francesa, seu trabalho era na verdade o de um espião a serviço do Segundo Império de Napoleão III. Tinha sido recrutado quatro anos antes, logo após o sobrinho de Napoleão ter se proclamado Imperador. Apesar de contrário a tirania, Amadée não podia negar a veia progressista do governante, um grande apoiador da ciência e da industrialização. E além do mais, era muito mais emocionante ser um espião do que um mero comandante de missões de hidrografia, medindo profundidades e mapeando costas.
- E isso é um perigo. Esses… republicanos falsos nada mais são que aristocratas inconformados com as mudanças que os tempos trouxeram. A república deles será é uma oliquarguia, excluindo ainda mais os desamparados. Algo que nos fará voltar ao mundo feudal, atrasado e despótico. Uma nova Idade das Trevas, é isso o que eles querem.
O Ministro, apesar de bem-intencionado, desconhecia as verdades de como era ser um dos “desamparados”. Mouchez, apesar de nunca ter sido um, convivia com os marinheiros e suas vidas sofridas. Naquelas camadas, fazia pouca diferença quem estava no comando. Porém, ficou calado. Não estava ali para discutir políticas ou o conceito de democracia. Nem mesmo apontar como a fala de seu superior era paradoxal. Ambos trabalhavam para um imperador, um sistema de governo pouco democrático – mesmo que tivesse sido eleito.
Então, ouviu atentamente.
- O crucial é cortar o mal pela raiz e impedir que esses ratos prosperem. Para isso, precisamos encontrar o lugar onde eles fazem suas reuniões. O relato de um dos auxiliares de Roussin, o tenente Gressier, foi bem enfático em apontar a cidade do Rio de Janeiro, onde está instalada a Corte Imperial. É o centro de poder do Brasil, uma cidade caótica e imensa.
- O que devo fazer?
- Encontrar os malditos Máscaras Brancas. Acabar com o refúgio deles e descobrir seus planos, as ligações com os conspiradores franceses e mexicanos. Temos que defender os ideais com que criamos a nossa pátria!
“Ou os tronos dos Bonaparte, o que me parece mais adequado nesta situação.” Mouchez conteve a sua ironia, sabendo que Jules Verne era muito novo e ainda deslumbrado pelo que via acontecer. O hidrógrafo-espião reconhecia as virtudes do seu superior, um homem inventivo e inteligente, mas não podia deixar de ver um pouco de ingenuidade na sua constante defesa do bonapartismo.
Preferiu ser pragmático.
- Bom, o que terei a minha disposição?
- A D’Entrecasteaux, uma fragata recém-desenhada. Aparentemente, um navio comum para cabotagem, porém tem várias adaptações e melhoramentos – o brilho nos olhos de Verne dizia que ele tinha sido o responsável por essas melhorias. – Entre outras pequenas coisas. Venha comigo!
Mouchez seguiu-o até um imenso armário de madeira maciça, cheio de trancas e cadeados. Parecia esconder um imenso tesouro, mas decepcionou-se ao ver que era apenas uma série de invenções amalucadas, provavelmente de lavra do ministro.
- Este – disse, tirando um imenso casaco. – é o sobretudo a vapor. Além de aquecer, tem um dispositivo onde se coloca um pouco de carvão. Ao acionar esse botão, perto do colarinho, o carvão começa a queimar e em minutos você será capaz de pular uma altura de quinze metros com o impulso do vapor, ou se já estiver no ar poderá controlar a queda e até mesmo subir alguns metros. É revestido por uma liga metálica flexível, tornando-se resistente a golpes de lâminas e a tiros…
O hidrógrafo segurou a vestimenta e quase desequilibrou-se.
- Mas isso deve pesar mais de 15 quilos!
O ministro mal o escutou.
- Sim, tem algumas desvantagens… Nada que atrapalhe o seu uso. O que mais tenho aqui? O óculos de visão noturna!
Jogou um intrigante artefato feito de vidros de várias cores no formato de um binóculo para ser prendido ao rosto. Dois fios de cobre saiam das laterais.
- Para funcionar, você precisa unir os dois fios assim… – demonstrou com cuidado. – e esfregar com um pedaço de lã. Isso irá ativar o material reativo que está entre as placas de vidros e você conseguirá ver fontes de calor à noite…
Mouchez resolveu não argumentar e apenas ouviu a ladainha incessante do ministro. No final da reunião, conseguiu sair levando apenas os dois primeiros artefatos, além de uma caixa quadrada que segundo Verne ‘tirava daguerreotipos instantâneos, que eu chamo de fotografias’. Aceitou, sabendo que no tipo de serviço em que estava, essas parafernálias pouco significavam perante a inteligência e a rapidez de raciocínio.
Chegou aos seus aposentos exausto. No dia seguinte partiria para Marselha, onde embarcaria na D’Entrecasteaux. O disfarce era o de uma missão hidrográfica, como tinha sido em três ocasiões anteriores. Mouchez desconfiava que os brasileiros sabiam da verdadeira natureza daquelas constantes visitas francesas ao seu litoral, mas que preferiam não arrumar problemas com os vizinhos. A primeira parada seria em Caiena, para se abastecerem e mandarem informes para Paris. Dali, seguiriam fazendo a cabotagem da costa brasileira, uma viagem de quase um ano inteiro – pelos cálculos de Mouchez, em seis meses chegariam na Corte, onde finalmente iria poder fazer sua investigação. Iria tentar demorar o menos possível, porém sua mente de cientista lamentava não poder fazer com cuidado e tempo sondagem batimétricas nos pontos perigosos da costa atlântica. Estava particularmente curioso pelos recifes chamados Abrolhos.
Divagava sobre os rumos da sua viagem quando ouviu baterem na sua porta. Ficou intrigado, pois era raro receber visitas. Para não correr riscos, pegou sua arma e deixou-a pronta.
Abriu a porta e ficou furioso com o que viu.
- Você? Seu cretino, eu pensei ter sido claro quando disse… – e avançou para cima do homem ruivo que estava parado na sua frente.
O visitante reagiu prontamente e em minutos Mouchez estava estatelado de costas no chão, uma mão do visitante tapando a sua boca, enquanto a outra empunhava a mesma arma que minutos antes ele preparou
- Desse jeito, você parte meu coração, Amedée. Eu pedi desculpas por ter sumido com o seu dinheiro, mas era um caso de vida ou morte. Agora, fique tranqüilo que vim a mando do Jules.
Mouchez já desconfiava disso. Assentiu com a cabeça e o ruivo soltou-o.
- Devo dizer, Richard, que eu esperava que estivesse na Inglaterra, cumprindo pena pelos seus crimes
- E eu estava – o irlandês pegou uma maçã do cesto que ocupava o centro da única mesa. – Mas a prisão fica monótona depois de dois anos, principalmente ao pensar que ainda faltavam 198 anos para cumprir a minha pena. Bom, vamos aos negócios.
No mesmo jeito despachado que Mouchez lembrava, Richard Davis sentou numa cadeira e colocou os dois pés em cima da mesa. Deu uma grande mordida na maçã.
- Está murcha, você precisa comprar frutas frescas… Bem, Jules disse que você vai precisar de alguns músculos na próxima missão, lá na América…
Mouchez olhou com nojo para as botinas sujas de lama em cima do seu móvel, mas preferiu não comentar nada. Ao invés disso, perguntou:
- E como você poderá me ajudar?
- Simples. Mudando seus planos de cabeça para baixo.
A cara de desentendido de Mouchez arrancou uma gargalhada de Davis.
- Oras, meu caro. Decididamente, você passou as últimas duas horas pensando em uma longa viagem de navio, estudando a fascinante composição do solo marinho… Quase um ano dentro do navio, números, cálculos, etc, etc… Não, nada disso. Temos que ser mais diretos. Os relatórios dos espiões indicam que o golpe pode acontecer em breve.
Irritado e sem muitas sutilezas, o hidrógrafo empurrou os pés do seu visitante.
- E como iremos chegar rápido ao Brasil?
- Voando… A fragata irá seguir o plano original, com um falso Mouchez. E nós, meu querido, vamos pelos céus no mais fabuloso engenho humano…
- Bateram demais em você na prisão, meu caro. Está começando a delirar, o que você disse não faz o menor sentido.
Sua única resposta foi o sorriso altamente malicioso do ruivo.
No dia seguinte, Mouchez ainda estava descrente das palavras de Davis. Tomou o seu desejum e arrumou-se da forma meticulosa que lhe era costumeira e preparou suas malas para a viagem que iria fazer. Olhou em dúvida para o sobretudo que Verne lhe dera, mas resolveu vesti-lo. Afinal, corria uma leve brisa mesmo. Ao descer, encontrou Davis encostado em uma carruagem sem cavalos. Mouchez ergueu as sobrancelhas. Já conhecia esse tipo de veículo apesar de saber o quão raros eram.
- Pronto para voar?
- Sim, quando esta geringonça explodir provavelmente iremos sair voando pelos ares…
Com um movimento cínico, imitando uma cortesia, Davis abriu a porta de ferro pintado. Ressabiado, o hidrógrafo entrou, enquanto o ruivo sentou-se no lugar do condutor. Partiram com um grande solavanco e um estrondo.
- Espero que saiba o que está fazendo…
- Claro que sei. Segure firme que a viagem será acidentada.
Foram sacolejando pelo calçamento de Paris. As pessoas na rua olhavam surpresas o veículo. Nas janelas, cidadãos assombrados apareciam para ver o que estava causando tanto barulho. Mas Mouchez mal percebeu essas reações, pois estava ocupado demais em tentar manter-se preso no banco enquanto Davis dirigia, cantando algo.
Para o bem do hidrógrafo, a viagem não demorou tanto. Depois de uma breve pausa para o almoço em um restaurante já fora do centro de Paris, prosseguiram no seu caminho. Tinham saído da cidade, seguindo na estrada de terra que levava a Chartres. Em um descampado sem ninguém próximo, Davis fez uma curva abrupta, fazendo o passageiro bater a cabeça na lateral do carro e começaram a andar fora da estrada, por uma trilha pouco usada e coberta de mato. O ruivo falou, gritando para ser ouvido por cima do barulho do motor.
- Estamos quase chegando. Garanto que você irá ficar surpreso com o que vai ver.
E Mouchez realmente ficou. Minutos depois desse aviso, o veículo começou a aproximar-se de uma imensa estrutura de pano e metal que brilhava ao sol.
- Pronto, eis nosso meio de transporte!
Para Mouchez era inconcebível que algo pudesse voar pela distância que separava a França do Brasil. Mas também nunca conseguira imaginar que existisse algo como o que estava vendo. Tinha a forma de um charuto, um pouco mais gordo talvez. Uma cabine sustentava um balão de pano que estava começando a ser inflado aos poucos com ar quente.
Davis parou na frente de uma cabana.
- Pronto. Aqui temos que deixar o carro, pois faíscas podem incendiar o balão e não queremos isso. Pronto, Amedée?
Ele não respondeu, admirado ainda com o que via. Um senhor de cabelos brancos sujos, vestido com uma espécie de jaleco completamente manchado de óleo, aproximou-se.
- Boa tarde. Os senhores são os nossos passageiros? Meu nome é Couttard e sou o responsável por essa operação.
- Prazer.
- Os preparativos estão sendo concluídos, em breve tudo estará pronto para a partida de vocês, de acordo com o papel timbrado que recebi. O piloto está esperando na cabine. Tem provisões suficientes para ida e volta.
O velho falava e indicava o caminho na direção da estrutura. Na verdade, fazia isso para Mouchez, pois Davis avançou por conta própria, muito interessado.
Ao aproximarem-se, foram saudados por uma inesperada voz feminina.
- Olá, passageiros!
Ela era loura, olhos azuis e um belo sorriso. Davis confidenciou a Mouchez entre dentes.
- Bonitinha, mas muito magra para mim…
O francês não respondeu, pois sua estupefação só aumentava. A moça era indiscutivelmente uma beldade e tinha traços semelhantes aos do velho engenheiro. Estava vestida com uma calça de sarja marrom e um colete de couro. Usava uma touca cobrindo as orelhas, deixando o cabelo sair por trás, e veio recebê-los com a mão estendida.
- Vejo que já conheceram meu avô. Eu sou a Geneviéve, mas podem me chamar de Gen.
- Eu sou o Davis e o meu colega de boca aberta é o Amedée…
O hidrógrafo conseguiu recobrar a sua presença de espírito a tempo de dar uma cotovelada em Davis.
- Senhora, desculpe os modos rudes de Davis, lamento muito por isso.
Apertou a mão delicada, surpreso com a força que ela tinha.
- Sem problemas, monsieur Mouchez. Estou acostumada a lidar com operários e mecânicos, não tenho tais susceptibilidades. Bom, vamos aproveitar que o dia está bom para partir logo. Assim, chegaremos na Guiana em três dias, quatro no máximo.
Enquanto caminhavam até o fabuloso engenho, Mouchez conversou com a jovem engenheira.
- Então, devo dizer que estou muito curioso para saber como funciona essa maravilha que a senhora criou…
- Realmente, monsieur, pode me chamar de Gen. O princípio do vôo é muito simples, tendo sido descoberto por um padre português há vários anos. Na época em que Portugal esteve sob o comando francês, o general Manet encontrou vários planos e projetos desse inventor e os enviou imediatamente para a França. Há equipes trabalhando nos esquemas do padre desde então. Meu avô foi um dos primeiros engenheiros a conseguir chegar a um protótipo que pudesse ser manobrado…
- Surpreendente. Mesmo com as mudanças de regime, o projeto não foi afetado?
- Não. Conseguimos nos manter em segredo por todos esses anos, trabalhando com um orçamento desviado de outras instâncias de governo… Afinal, todos os que sabiam são cientistas, leais ao nosso país e à ciência. Assim como o senhor, o que me deixa de consciência tranqüila em deixá-los ver nossa grande invenção.
Mouchez não tinha tanta certeza se poderiam confiar em Davis, mas se o ministro tinha designado o irlandês para a missão é por ter levado essas minúcias em consideração.
- O ministro Verne deve adorar esse projeto…
Gen arregalou os olhos azuis.
- Jules Verne? Mas ele não sabe o que estamos fazendo aqui, o Ministério de Assuntos Secretos não participa da nossa cooperativa.
- Então, como conseguimos a autorização para utilizar o seu veículo aéreo?
- Bom, recebemos um pedido do Ministério da Marinha para fazer uma viagem de reconhecimento de rotas de navegação e configurações astronômicas. Seu nome foi citado e como sabemos de seu trabalho científico, consideramos adequado o pedido. O senhor não é da Marinha?
- Sim, sou…
Nesse momento, Mouchez sentiu algo cutucar a sua nuca.
- Foi mal, Amedée meu velho. Porém, para variar você caiu como um pato em tudo o que eu disse. A beldade pode fazer o favor de seguir em frente, se não teremos miolos de hidrógrafo para o jantar.
Continuaram a caminhar carregando as malas de viagem. O dirigível ficando ainda mais gigantesco conforme se aproximavam, parecendo um edifício cheio de ar. As amarras o prendiam na terra enquanto o balão ficava cada vez mais estufado. Os três passaram em silêncio pelos operários que davam os toques finais.
- Agora, minha cara, não diga nada, pois se o fizer, além de matar meu amigo aqui irei furar essa bolha de ar.
- Por que você está fazendo isso, Davis? – Mouchez perguntou, indignado.
- Digamos que os espiões ingleses descobriram esse projeto e a justiça britânica considerou uma redução drástica da minha pena se conseguisse levar o protótipo e alguns planos até o outro lado da Mancha. Então, foi só fazer os meus contatos no Ministério levarem uns dossiês modificados para o bom, criativo e ingênuo Verne…
O ruivo sorria, satisfeito consigo mesmo. O hidrógrafo mal podia acreditar no que estava ouvindo.
- Não há cabala secreta ameaçando o trono imperial brasileiro? Mas o almirante Roussin…
- Era um dos homens menos imaginativos que eu já li, Mouchez. Ele só via o que estava claro, jamais perceberia uma ameaça misteriosa ou algo do tipo. Mas seu rigor científico fez com que Verne o admirasse, então…
A moça resolveu interferir na conversa.
- E o que você quer de nós?
- Pode ficar tranqüila, mocinha. Nada de mau irá acontecer a vocês… de muito mau, pelo menos. Depois que pousarmos na Inglaterra, você irá reproduzir os diagramas dessa coisa, elucidar uma ou outra dúvida e será liberada. Meu camarada aqui provavelmente vai responder a um interrogatório e passar um tempo descansando em alguma penitenciária britânica. Dizem que a da ilha de Mann é muito pacífica…
A raiva de Mouchez era tamanha que ele rangia os dentes. Sabia que estava numa situação difícil. Não tinha como avisar os operários sem colocar a todos em perigo. Conhecia Davis e sabia que o irlandês não iria parar até conseguir o que queria. O melhor a fazer era saírem dali para que os demais pudessem ficar a salvo. No ar, teria que arranjar uma forma de libertar a si e a Geneviéve.
Esperava que a moça compreendesse. Olhou-a e percebeu que ela também o observava. Deu um sorriso, buscando confortá-la e ela olhou na direção do avô, que conversava despreocupado com os operários. Mouchez sinalizou que tudo ficaria bem e só então ela sorriu de volta.
Davis percebeu a troca de informações entre os dois e apertou a arma com mais força na nuca de Mouchez.
- Sem gracinhas, Amedée. Você sabe bem com quem está lidando. Não estou para brincadeiras hoje.
O hidrógrafo não respondeu e prosseguiu. Olhou disfarçadamente para os lados, tentando analisar a situação. O balão estava praticamente cheio, as cordas que seguravam a frágil estrutura, retesadas. A partida era iminente e os operários começavam a fazer as checagens finais, soldando pequenos pedaços aqui e ali, ajustando um ou outro parafuso. Mouchez podia ouvir o metal estalando e se acomodando. Esperava sinceramente que aquela geringonça voasse, embora não tivesse pensado no que iria fazer quando estivessem lá em cima.
A escada de metal que ficava dependurada da cabine do balão-dirigível rangeu quando subiram. Uma brisa suave começava a soprar com um toque de gelo. Era o vento leste, um bom prenúncio se os planos anteriores fossem ser realmente cumpridos. Na atual situação, Mouchez não sabia o que esperar.
A cabine era relativamente espaçosa, dividida em quatro ambientes. No bico da aeronave, ficava um timão parecido com o de um navio ligado a uma série de polias e roldanas que conduziam a nave. No lado oposto, duas portas fechadas davam para o que Geneviéve descreveu como aposentos privativos. No meio, uma sala de convívio e refeitório. Os três acomodaram-se perto da murada, vendo a movimentação final para a partida.
- Pronta, Gen, my dear. Estamos todos a bordo, pelo que vejo. Pode dar ao seu tio a ordem de partida.
A moça hesitou em cumprir a ordem, fazendo com que o ruivo engatilhasse a arma e aumentasse a pressão na nuca do espião-hidrográfo.
- Vou dar uma chance a você porque não nos conhecemos – prosseguiu pausadamente, acentuando as palavras. – Mas não estou blefando e não irei hesitar um instante sequer em estourar o crânio de nosso amigo em comum.
Os lábios da engenheira tremeram, mas ela não disse mais nada. Respirou fundo e parecia pronta a chamar o avô quando Davis a interrompeu.
- Sorry por interrompê-la, mas você poderia pedir ao seu avô para trazer seus planos e esquemas? Sabe, a papelada que ajudou a construir essa traquitana toda…
- Se eu pedir isso, meu avô irá estranhar… Poderá levantar suspeitas.
- Bom, a não ser que o velho seja muito rápido de raciocínio, provavelmente já estaremos voando quando ele perceber que há algo de errado. Não acho provável. Dê uma boa desculpa, mas ande logo. Estou cansado da França – e indicou Mouchez com a cabeça, dando a entender que descontaria seu tédio nele.
Geneviéve entendeu o recado e foi até a janela da cabine.
- Avô, o senhor pode trazer a caixa com os desenhos e esquemas do Josephine? Se houver algum problema, eles poderão ser úteis.
Para a tremenda decepção dos dois reféns, o velho senhor Couttard sequer atentou a estranheza do pedido. Simplesmente foi na direção da cabana e trouxe o que a neta pediu. Geneviéve olhou para Mouchez e disse, com amargura.
- Meu avô é muito solícito.
Davis se meteu.
- Adorei o velho, dear. Agora, vamos.
Ela deu as ordens e as cordas foram soltas. O veículo deu um solavanco e começou a subir bruscamente, dando trancos.
Génevieve teve que falar alto para ser ouvida.
- Tenho que calibrar o vapor… Se não, continuaremos a subir sem controle e as caldeiras poderão explodir!
Davis simplesmente acenou com a cabeça, ocupado que estava em se segurar com uma mão e apontar a arma para Mouchez com a outra. A moça afastou-se até a cabine de comando e puxou uma alavanca. O veículo balançou, desequilibrando os seus ocupantes. O espião francês viu no momento de distração do seu captor a sua grande chance de escapar.
Mas a única chance de sobreviver dependia do engenho inventivo do seu ministro. E esse costumava falhar por vezes. Bom, ele iria morrer de qualquer maneira ao chegar na Inglaterra então pouco tinha a perder.
Com um safanão, libertou-se e no mesmo movimento, para não deixar Davis pensar, atirou-se pela murada. Ouviu o grito angustiado de Geneviéve e as imprecações de Davis, abafados pelo zumbido do vento em seus ouvidos.
“Meu caro Verne, vamos ver se você é mesmo tão genial.”
O peso do casaco de metal o puxava para baixo mais rápido do que esperava. Teria poucos segundos para agir. Conseguiu posicionar-se abaixo do dirigível, ergueu a cabeça e acionou o dispositivo inventado pelo ministro.
O impulso quase fez com que ele batesse na parte inferior do casco do dirigível. Consegui se desviar no último momento e segurou na lateral, bem a tempo de acabar o pequeno estoque de carvão do dispositivo criado por Verne. Para livrar-se do peso extra, jogou o casaco, que caiu rapidamente.
De onde estava, pode ver Davis ameaçando Geneviéve. Decidiu não fazer nada e esperar uma oportunidade. Pelo que pode ver, o sistema de iluminação, a gás, era concentrado em cima da cabine de comando. Quando a noite chegasse, seria mais fácil se movimentar pelo dirigível sem ser visto pelo inglês.
Felizmente, tinha os óculos para enxergar na ausência de luz.
Infelizmente, não sabia quando tempo sua viagem iria demorar e se a noite ainda estariam sobre solo francês ou no meio da Mancha.
Mas tinha que arriscar. Ajeitou-se como pode no canto mais afastado do comando e preparou-se para a longa espera. Pela posição do sol teriam no mínimo mais três horas de luz natural.
Ainda estavam sobrevoando a França quando chegou o anoitecer, mas algo no ar dizia para Mouchez que em breve estariam sobre o mar. O tempo seria mais escasso do que pensava. Olhou na direção do leme e viu Geneviéve ainda sob a mira da arma de Davis. O irlandês parecia exausto, no entanto, o que era uma grande vantagem para Mouchez. Tinha que desarmá-lo rápido, sem dar chances para reação.
Esperava dar tanta sorte com o óculo como dera com o casaco projetado por Verne. A noite caia rápido e a luz ficava cada vez mais escassa. A iluminação no veículo era concentrada em cima da cabine de comando. Se a criação de Verne funcionasse, ele conseguiria reaver o controle da aeronave rapidamente.
Era noite de lua nova e a escuridão era quase total. Geneviéve estava na direção enquanto Davis continuava a empurrar a arma em sua direção. Não podia esperar mais para atacar.
Fez o que seu chefe havia dito, esfregando as pontas do fio de cobre em um pedaço de lã. O cheiro era um pouco estranho, mas se acostumou logo. Ficou maravilhado ao ver como estava funcionando bem. Não podia ver claramente, porém via em tons de verde, amarelo e vermelho. Dava para distinguir os vultos dos dois claramente, mesmo na luz fraca.
Respirou fundo e foi em frente. Aproximou-se em silêncio, pois Davis era um agente treinado e poderia percebê-lo no escuro. Ouviu os dois discutindo.
- Estou dizendo que não vou conseguir continuar. Estou com sono, cansada, quero ir ao toalete…
- Já falei que na Inglaterra você vai dormir na sala de banhos. Agora, cala a boca ou vai voar que nem o seu amiguinho.
Nesse momento, Mouchez pisou em um pedaço mal-colocado do piso, que rangeu baixinho.
- O que foi isso?
- Talvez tenha sido o vento forçando uma das amarras. É melhor eu ir ver o que aconteceu.
- Nada disso, querida. Você vai ficar aqui mesmo. Sei lá que truques você carrega na manga.
Mouchez lamentava não ter ficado com o casaco, para se proteger de possíveis disparos. Porém, contava com o pouco de bom-senso de Davis. Ele não iria arriscar um tiro que poderia matá-los a todos.
Em um único movimento ligeiro, aproximou-se dos dois. Puxou Geneviéve na sua direção e colocou-se entre ela e Davis. O irlandês percebeu a movimentação.
- Quem está aí? Geneviéve?
Mouchez não hesitou e deu um soco no estômago do seu antigo parceiro de viagem. Precisava tirar a arma dele o mais rápido possível, antes que conseguisse reagir. Só que Davis não conseguira sua fama de bom lutador a toa. Assim que ele percebeu de onde vinham os golpes, virou-se na direção de Mouchez, que estava visível na iluminação fraca da cabine.
- Você não tinha morrido, desgraçado?
Tentou bater com a coronha de sua pistola no braço de Mouchez, mas este conseguiu jogar o corpo para o lado e se desviar.
- É que sou um anjo e voltei voando.
Chutou o peito de Davis que agüentou o tranco e segurou o seu pé. Mouchez se desequilibrou e o seu oponente aproveitou-se disso para derrubá-lo no chão.
- Anjo, é? Dessa vez, vou fazer com que você caia direto no inferno.
Davis estava mirando no peito de Mouchez, mas antes que pudesse atirar, o francês rolou de lado. Levantou-se o mais rápido que pode, enquanto o outro refazia a sua mira.
- Trate de ficar morto dessa vez, francês fedorento.
Mouchez saltou para a frente bem no momento em que Davis atirava. Conseguiu bater no braço dele e desviar o tiro ao derrubar a arma. O resultado foi desastroso. Geneviéve deu um grito estridente ao ouvir o barulho da bala arrebentando o tecido e o ar começando a escapar.
- Não! O tiro furou o balão.
O espião francês desviou a sua atenção por um instante. Davis aproveitou esse momento para derrubá-lo. Os óculos quebraram com o impacto do rosto no chão da cabine e Mouchez sentiu um corte na bochecha direita. “Pelo menos, não foi no olho.”
- Vocês querem parar com isso, nós vamos cair!
Geneviéve aproximou-se da direção, passando pelos dois. Davis buscava recuperar a arma enquanto Mouchez se levantava. A aeronave começava começava a perder altura rapidamente.
Mouchez tinha se erguido e Davis desistiu de procurar o seu revólver. Os dois voltaram a se engalfinhar, desferindo socos enquanto tentavam não se desequilibrar no dirigível que dava solavancos bruscos enquanto caia.
Chegou um momento em que Mouchez se viu encurralado entre Davis e a murada que cercava a cabine. Estava de frente para seu inimigo e segurava-se na murada com as mãos. Não tinha outra saída e o irlandês estava enfurecido.
- Eu sinceramente espero que doa bastante cair dessa altura, Mouchez – ele arremeteu na direção do francês na mesma hora em que Geneviéve fez a aeronave dar uma guinada para a esquerda.
O resultado foi previsível. Com isso, Davis se desequilibrou, dando a chance para que Mouchez tentasse imobilizá-lo. Porém, ele não aceitou isso quieto e se debateu.
- Fique quieto, Davis, você vai acabar caindo.
O irlandês mordeu o braço de Mouchez que deu um berro e o soltou. Sem conseguir se equilibrar, Davis acabou caindo pela murada. Não deu tempo para reagir. Mouchez e Geneviéve assistiram incrédulos.
- Droga, não devia acabar assim.
- Mouchez, nós temos outros problemas…
Mal ela terminou de falar isso, a aeronave deu outra balançada, começando a cair ainda mais rápido. O balão acima de suas cabeças estava cada vez mais vazio.
- Você tem como consertar isso?
Ela sacudiu a cabeça.
- Sem condições. Se algo tivesse sido feito logo após o tiro, ainda teríamos alguma chance de consertar. Agora, eu tenho que nos colocar em terra da melhor forma possível – disse isso agarrada no leme. – Tente ver se encontra um lugar onde possamos descer.
A noite escura não estava ajudando nada e Mouchez demorou a encontrar um lugar.
- Ali, a oeste. Tem um pequeno bosque e depois uma clareira.
- Certo, vamos ver o que eu consigo fazer.
Foram minutos angustiantes, a nave descendo cada vez mais rápido e a moça tentando controlá-la.
- Geneviéve, estamos baixo demais e as árvores estão se aproximando.
- Então não vai ter jeito. Segure-se.
Mouchez não sabia contar o que aconteceu exatamente. Assim que Geneviéve mandou segurar-se, ele fechou os olhos. Conseguiu sentir os solavancos e o barulho da madeira da cabine arrastando na cabine, o cheiro de galhos e folhas partidas, o impacto quando alcançaram o chão.
Depois, mais nada.
Acordou com Geneviéve segurando a sua cabeça. Ela segurava um lampião e parecia preocupada.
- Monsieur Mouchez? O senhor está bem?
Ele tentou sacudir a cabeça, mas a dor fez com que pensasse melhor e respondesse falando.
- Sinto muita dor, porém não creio que haja algo quebrado. Onde estamos?
- Nos arredores de uma aldeia costeira. Os aldeões viram a aeronave cair e vieram nos ajudar. Por muito pouco não caímos no canal da Mancha.
- Temos que avisar Verne e seu avô.
Ela sorriu.
- Já fiz isso. Avisei o magistrado e mandei um mensageiro para lá. A resposta deve chegar em dois dias.
Ele olhou ao seu redor para os destroços da primeira aeronave dirigível a singrar os céus.
- É uma pena tudo o que aconteceu… – de repente, ele teve um péssimo pressentimento. – E Davis? Os projetos?
O belo rosto de Geneviéve fechou em uma expressão preocupada.
- Fizemos uma busca preliminar. Nem sinal do corpo dele. O magistrado ficou de avisar as vilas dos arredores sobre ele. Também não encontramos os planos que estavam com ele…
O coração de Mouchez ficou apertado no peito. Davis era conhecido por ter enganado a morte diversas vezes. Não ficaria surpreso se em breve tivessem notícias de uma esquadra aérea britânica.
Ouviram os aldeões se aproximando em uma charrete.
- Vieram nos buscar. Pronto para ir?
- Sim – ele não parecia nada animado e ela o ajudou a se levantar. – Mas antes… Nossa bagagem se salvou?
- Não vi nada faltando, por que?
Mouchez conseguiu sorrir, apesar de toda a dor que sentia;
- Quero levar ao ministro Verne uma imagem do que aconteceu aqui hoje. E como os dois outros inventos dele funcionaram, esse deve funcionar também. Vamos tirar uma fotografia.
- Mas… ele não sabe do nosso projeto.
O hidrógrafo olhou na direção do mar.
- Se meus temores se confirmarem, não irá demorar muito para o seu projeto deixar de ser um segredo…








novembro 17th, 2009 at 11:24
Já tinha lido e gostado. Agora reli e resenhei rapidamente: http://cidadephantastica.blogspot.com/2009/11/mon-nom-est-mouchez-ernst-mouchez.html
novembro 17th, 2009 at 14:42
Woa, Ana. Além de mandar bem nos contos curtos, arrasa nos contos longos. Parabéns. Só a cor de fundo e a da fonte que acabam comigo, rs…