Ficção a todo o Vapor!
Mesdames et messieurs, benvindos ao Observatório a (do) Vapor, um espaço para discutir e apresentar um subgênero da literatura especulativa que vem gerando um grande burburinho no nosso fandom.
Aqui teremos resenhas, artigos, comentários, notícias e até mesmo exemplos da literatura a vapor.
Para começar os trabalhos, aí vai uma versão levemente alterada do meu ensaio ‘Ficção a Vapor‘, publicado em 16/07/2009 no blog ‘Ficção Científica e Afins’:
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Peço uns minutinhos de vossa atenção para explicar o novo hype da Ficção Especulativa brasileira. Se você estava se esforçando para ser o novo China Mieville, dançou. Joga fora o conto. Ser weird é coisa do passado. A onda agora é… ser um steamer.
Steampunk é um estilo dentro da Ficção Especulativa em que se reproduz uma Era Vitoriana ucrônica, com avanços tecnológicos baseados no vapor. Vejam bem: a ênfase não é exatamente no Vapor – ou um conto sobre a minha chaleira seria steampunk – mas principalmente no ambiente que envolvia a Londres da segunda metade do século XIX.
Agora, qual o interesse em reviver essa época da história britânica?(Sim, bonitinho, Era Vitoriana strictu sensu foi só nos domínios ingleses…) Afinal, por maior que seja a variedade de cenários em que o steampunk se desenvolva, a sua base fundadora é esta, inegavelmente – até porque lá foi o berço da Revolução Industrial, o grande momento da tecnologia a vapor.

A Era Vitoriana compreendeu os anos do longo reinado da rainha Vitória, que governou o Reino Unido entre 1837 e 1901. Até hoje, desperta saudades nos britânicos por ter sido um período de prosperidade – para uma camada populacional bem definida, uma classe média urbana e mercantil que ascendia socialmente – e de grande pujança para o Império Britânico, sobre o qual o Sol nunca se punha. (Ok, a frase original é sobre o Império Espanhol do século XVI, mas está valendo aqui também).
Literariamente, tínhamos dos cínicos cronistas do mundo enfumaçado como Charles Dickens aos românticos crônicos como Tennyson. De um lado, a dura vida cotidiana de órfãos, do outro, a Idade Média adoçada, fundada por Walter Scott, uma época fundadora onde teria nascido o sentimento da nação no meio de justas, torneios e belas donzelas amorosas. E claro, a literatura aventurosa, como a de Robert Louis Stevenson, de piratas e tesouros, ou de H. R. Haggard e Rudyard Kipling, em que as estranhas terras dos domínios britânicos serviam de palco para a aventura de um grande herói.

Charles Dickens
Porque essa foi também a época das grandes explorações geográficas e dos aventureiros. A Oceania, a África, a Ásia e a América – abaixo do Rio Grande, pelo menos – eram os quintais dos corajosos britânicos, impelidos pelo ímpeto da necessidade de se conhecer o Mundo como um Todo, eliminando as incomodas ‘terras incognitas‘ que ainda apareciam nos mapas. A Sociedade Real de Geografia divulgava alvoroçada os descobrimentos e as novidades em seus boletins, ricamente ilustrados com gravuras de lugares exóticos e mapas o mais precisos que fosse possível. Florestas eram desbravadas, nascentes foram encontradas, tribos foram pacificadas (algumas nem tanto). Souvenirs eram trazidos: cocares, flechas, potes, pigmeus e cabeças tatuadas de maoris.
(Sério. Até uns anos atrás, o Museu da Quinta da Boa Vista tinha duas em exibição. Não estavam mais expostas na última vez que eu fui lá, mas fuçando na internet descobri que o governo da Nova Zelândia vem pedindo desde 2003 aos museus do mundo o repatriamento dessas lembranças macabras. Alguns atenderam, a França não quis abrir precedentes e a cabeça da foto estava em exibição na Bélgica em 2008)
A ciência floresceu. Charles Darwin escrevia sobre bicos de passarinhos ‘galapaguenses’. Faraday quebrava a cabeça tentando entender o magnetismo. E um tal de Charles Babbage começou a pensar em como seria uma máquina que pensasse.
Obviamente, nem tudo eram flores. Havia miséria – a emigração massiva de irlandeses para os Estados Unidos começou por essa época, guerras e conflitos armados grassavam nos domínios. Londres era uma cidade suja e perigosa. Afinal, Jack The Ripper é tão fruto dessa época quando o Dr. Livingstone.
Ok, Ana, valeu pela aula gratuita, mas… e daí?
Vocês prestaram atenção ao que eu disse lá em cima? Steampunk NÃO é sobre vapor. Assim como o cyberpunk não é sobre tecnologia. Ambos são sobre a atitude de uma época. A parte do ‘punk’ é o que importa aqui.
O século XIX é uma época vista com nostalgia, a quintessência do que a classe média urbana quer dizer quando fala em ‘bons velhos tempos’. Tem fascinado as gerações posteriores que escrevem e sonham com uma época em que um homem – ou uma mulher – valia pelo que realmente era e que valores eram respeitados. Aquela falsa sensação de ‘tudo era perfeito’ que o tempo consegue deixar no senso comum. Logo, o século XX é repleto de referências ao XIX – e muitas já com o toque da tecnologia a vapor que iria caracterizar o steampunk.
O cyberpunk é de certa forma o pai do steam, pelo menos no nome.
Este último, apesar de ter surgido esporadicamente desde a década de 1960, com algumas obras marcantes na década de 1980 (como Os portais de Anubis de Tim Powers), só se consolidou como gênero na obra de Bruce Sterling e William Gibson, The Difference Engine, de 1990. O termo apareceu anteriormente numa carta assinada por K.W. Jeter no prozine Locus em 1987, antecedendo em 3 anos o livro dos dois. O romancista referia-se a um trabalho de sua autoria, de 1979, só que o termo pegou. Porém, até os dois mais famosos pais do cyberpunk adotarem o gênero, o rótulo era usado de forma mais depreciativa. O termo vai aparecer em um título em 1995, com a Steampunk Trilogy de Paul Di Filipo.
A partir daí, o gênero se mostrou ser um campo para escritores inventivos poderem criar máquinas fantásticas e recriar o espírito vitoriano, aventuresco e cortês. Mesmo em obras com tons mais sombrios, os brios cavalheirescos surgem como uma luz na escuridão. O escopo geográfico ampliou-se, passou-se da Inglaterra e seus domínios para o resto desse mundo… e dos outros. Sim, ‘mundos’ a vapor foram concebidos e povoados, sempre mantendo um pezinho na sala de baile da Rainha Vitória.
Mas você provavelmente só ouviu falar de steampunk por culpa de um inglês barbudo que adora reclamar das adaptações de suas obras. Foi com a série A Liga dos Cavalheiros Extraordinários que o steampunk começou a chamar mais atenção. Ele e suas variações, como o dieselpunk de Captain Sky and the World of Tomorrow. O Vapor invadiu diversas vertentes. Desde o RPG Castelo Falkenstein (um favorito da casa) até o anime Steamboy.
E a gente com isso?
A gente realmente tinha pouco a ver com isso. Poucas obras do gênero foram traduzidas no Brasil. Esse ano, foi lançada a versão brasileira de Airman de Eoin Colfer, que saiu aqui como Aviador pela Galera Record (esperem para breve a versão cinematográfica) mas além disso, acho que só se você considerar o livro do Powers como steampunk. Talvez parte da trilogia de Phillip Pullmann. Nos quadrinhos, tivemos a Liga de Alan Moore. No RPG, Castelo Falkenstein. Nos cinemas, a coisa foi melhor: os blockbusters chegaram todos aqui – até mesmo As loucas aventuras de James West, infelizmente.
Agora, é de se admirar que um país que nos deu o Barão de Mauá, Augusto Zaluar, D. Pedro II, Santos Dummont… ainda não tenha produzido uma quantidade significativa de obras a vapor interessantes. Poxa, nosso imperador provavelmente foi o governante mais steampunk de sua época. Seu interesse por gadgets, ciências e novidades era/é notório.
Até esse ano, aconteceram algumas tateadas. Gerson Lodi-Ribeiro, Carlos Orsi Martinho e Octavio Aragão tangenciaram o gênero – os dois primeiros em contos, o último em seu romance, A mão que cria. Sendo um esforço criativo dentro da Ficção Alternativa, ao extrapolar as invenções dentro da obra de Júlio Verne, o autor criou um universo tecnologicamente avançado para o século XIX, em que não faltam criaturas estranhas, maquinas fantásticas e vapor, muito vapor.
Mas talvez a primeira obra consciente e declaradamente steampunk do Brasil sejam os quadrinhos de Expresso! de Alexandre Lancaster. Inspirada pelas edisonades e pela literatura pulp, a história do jovem cientista Adriano Montserrat se encaixa dentro do que os anglofonos chamam de Young Adults literature, ou seja literatura para jovens adultos – bem no clima do livro de Colfer citado acima. O piloto da série foi publicado em um projeto online de curta duração (e que você pode conferir parcialmente aqui), mas a saga continua, já que novas HQ’s estão previstas e um conto sobre o protagonista entrou na primeira coletânea nacional do gênero.

Com o burburinho em torno do steampunk aumentando, a Tarja Editorial convocou alguns autores – uns experientes, outros novatos – para escrever histórias no mundo do vapor.O lançamento do livro Steampunk – Histórias de um passado extraordinário foi em julho de 2009. Oportunamente irei fazer uma boa resenha da obra, mas adianto que no seu mix de histórias há vários estilo de steampunk e uma forte presença do Brasil enquanto cenário. Meu único porém é a presença de um conto pouco – ou nada – steampunk.
Mais iniciativas vem aparecendo aos poucos, como a futura coletânea capitaneada por Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva, com autores brasileiros e portugueses. Escritores vem desenvolvendo romances a vapor, como é o caso de José Roberto Vieira e seu Baronato de Shoah (o prelúdio está disponível aqui) e de Pablo Frazão e seu Mensagens na Garrafa.
Agora, é esperar para ver se continuamos na onda do vapor – ou se escolheremos um novo hype literário.
Links
Coletânea steampunk brasileira








novembro 4th, 2009 at 19:08
Eu sei que o texto não é inédito (embora esteja devidamente atualizado), mas… obrigado pela citação e estou deixando o primeiro comentário aqui.
novembro 4th, 2009 at 19:44
Eu espero que o texto fique desatualizado beeem rápido de novo!:)
novembro 4th, 2009 at 19:46
Bacana o texto, é sempre bom saber mais e mais do steam e seus parentes
novembro 4th, 2009 at 19:48
Fica ligado que teremos muitas novidades por aqui.:)
novembro 4th, 2009 at 23:36
Legal seu novo blog! E o stemapunk também… gosto dele mais que do cyber. Quem sabe quaquer hora me atrevo a escrever algo no gênero? Quem sabe estrelado por Dickens ou algum de seus personagens, como o Sr. Pickwick?
Ou quem sabe aquele sapo bacana que dirigia um carro e era amigo do rato e da toupeira em The Wind in the Willow, de Kenneth Grahame?
Hmmm. Altas ideias. Seja como for… longa vida ao steampunk. Verne rules!
novembro 4th, 2009 at 23:50
Benvinda ao mundo do Vapor, Ana.:)
O bacana do steampunk é justamente permitir esse uso de personagens queridos em cenários especulativos os mais prodigiosos possíves.
novembro 6th, 2009 at 19:51
Já está devidamente feito o elo teslônico com o endereço de meu humilde edifício.
novembro 8th, 2009 at 23:58
Merci, Romeu. Em breve vou ajeitar a parte de links do Observatório
março 24th, 2010 at 3:28
Gostei muito do blog, traz bastante informaçao historica, curiosidades numa linguagem convidativa e envolvente. Parabéns.
abril 12th, 2010 at 11:34
Só para atualizar este post “Mensagens na garrafa” agora esta em novo endereço segue o link para esta novela steampunk de piratas ^^